
Luiz Pérez Oramas engendrou, no seu livro Prisionero del aire (Prisioneiro do ar), uma poesia densa, pautada pelo rigor da construção. Com efeito, o poeta soube conformar, com maestria, o caos do existir à delicadeza de formas líricas exatas. O resultado desse lento burilar da palavra pode ser visto em seus poemas esguios, bem talhados, construções harmoniosas a nos desvelar a precisão equilibrada entre sentimento e forma poética.
As relações homoafetivas, na sua pletora orgiástica e sofrida, nos desvela o homem entregue às potências sombrias do fado humano, ante as quais a solidão se recrudesce, se intensifica. O corpo amante, após a intensa epifania do amor, permanece à margem do mundo, resguardando apenas a “esquecida melodia” de uma presença eternamente errática:
Gacela de Marcos
He estado con los días
traspirando la música olvidada
de otro cuerpo, la gris espera
de una lluvia incesante y seca.
He estado Marcos esperando
a sabiendas que no vinieras
y en tu lugar un ángel obstinara
el polvo menudo del deseo.
¿Quiénes son los que te olvidan?
¿Quiénes en el humo vespertino
de las ansias recuerdan
como un ligero temblor las sombras?
¿Quiénes se dicen las palabras
el breve murmullo que se entrega
el amor que no fue de nadie
a todo el mundo?
Gazela de Marcos
Estive com os dias
transpirando a música esquecida
de outro corpo, a gris espera
de uma chuva incessante e seca.
Estive Marcos esperando
já sabendo que não virias
e em teu lugar um anjo obstinasse
o pó ínfimo do desejo.
Quem são os que te esqueceram?
Quem no fumo vespertino
das ânsias te recordam
como um ligeiro temor as sombras?
Quem diz as palavras
o breve murmúrio que se entrega
o amor que não foi de ninguém
para todo mundo?
A solidão do amante torna impessoal o que fora gesto mais íntimo, entranhado no aconchego de encontros surdos, sussurrados no esquecimento. Daí o fato do amor perder sua individualidade e, numa inversão hiperbólica, tornar-se amor e também fado da humanidade toda: “o amor que não foi de ninguém/ para todo mundo?”.
Em Iderman, o corpo do amado é incerto, nele adensam-se metáforas da intensa fragilidade dos afetos: “noite de rotinas”, “corpo que não canta”. Como um sorvedouro, resta desse descompasso, desse desencontro, o desejo ácido, cáustico, “calcinante”, estigma de uma solidão frustrante:
IDERMAN
Era el cielo en ruinas, liso
como un torso de metales y de cuerdas
para navegar sin velámenes
en el acre olor de tu excremento
en el aire solamente
en la cresta solamente de la risa.
Eran cuarenta y cinco semillas secas
cuarenta y cinco árboles sin ramas y sin tallo
cuarenta y cinco raíces sin túmulo y sin agua
cuarenta y cinco soledades en tu mano
grande y fugaz como la tierra prometida.
Era una sombra leve, era un erial
tu piel en noche de rutinas
era el arma tensa y sin destino
el cuerpo incierto que no canta
aún su música de robles y vainillas
en el sol calcinante del deseo.
IDERMAN
Era o céu em ruínas, liso
como um torso de metais e cordas
para navegar sem velames
no acre odor de teu excremento
no ar somente
na crista somente do riso.
Eram quarenta e cinco sementes secas
quarenta e cinco árvores sem galhos e sem tronco
quarenta e cinco raízes sem túmulo e sem água
quarenta e cinco solidões em tua mão
grande e fugaz como a terra prometida.
Era uma sombra leve, era um ermo
tua pele em noite de rotinas
era a arma tensa e sem destino
o corpo incerto que não canta
ainda sua música de carvalho e baunilha
no sol calcinante do desejo.
O jogo sonoro das anáforas, muito usado por Lorca na tradição da lírica hispânica, aqui redunda no martelar das frustrações, do desencanto. Todas as metáforas são desoladoras, são imagens do completo naufrágio desse eu lírico em desamparo: “sementes secas” “árvores sem galhos”, “raízes sem túmulo”.
Podemos perceber, assim, nesse poema, as ruínas de um tempo em agonia, mal do século da pós-modernidade, em que as relações humanas são escalpeladas, em carne viva, numa atroz reificação. Com afirma Hilda Hilst, “esse é um tempo de garras”.
Todavia, o poeta pós-moderno, fiel à sua inspiração lírica, ou melhor, à clarividência salutar do inconsciente, instância psíquica a nos despertar ante os iminentes perigos da autodestruição, mergulha na reluzente epifania do instante, nova versão do carpe diem, e restaura a beleza sagrada de gestos, de momentos agudos, em que a felicidade ainda é possível...
No poema Gazela de Hugo, o corpo traz, ainda, em suas “sendas”, “a unção matinal dos eucaliptos”, as flores e o vinho. A gazela, ou gazel, resgata um gênero típico da poesia árabe. É tal gênero uma das influências da poesia trovadoresca. Em tal tradição, o vinho, a flor, os delicados prazeres, eram celebrados como ritos da própria poesia. Oramas não é infenso a essa celebração da vontade:
Gazela de Hugo
Nunca has visto las montañas
que nos son blancas, blancas.
Nunca has visto sólidas las nubes
como inmensas piedras erguidas
en tu sombra.
Prepara
para todos tus desvelos
las armas
del silencio.
Que repita el cuerpo
sus olvidos
que de nuevo traiga en sus senderos
la unción matinal del eucalipto
las arándanos, los jazmines de agua
el vino acariciando la piel dulce
de los higos ya la espera.
Gazela de Hugo
Nunca viste as montanhas
que não são brancas, brancas.
Nunca viste sólidas as nuvens
como imensas pedras erguidas
em tua sombra.
Prepara
para todos teus desvelos
as armas
do silêncio.
Que repita o corpo
seus esquecimentos
que de novo traga em suas sendas
a unção matinal do eucalipto
os mirtilos, os jasmins de água
o vinho acariciando a pele doce
dos figos e a espera.
Para encerrar esse brevíssimo passeio pela poesia do autor de Prisioneiro do ar, deixamos duas preciosidades, dois poemas de grande fôlego, nos quais a perplexidade de existir é o tom exato da paixão.
Segundo poema de las cosas
a Samuel Guillén
Las cosas tienen nombre
en la sombra que proyectan.
Las cosas
en su luz se sustantivan
se hacen verbo de los vientos
verbo de las lluvias
verbo encendido de los días.
Las cosas mudan, mudas
ignorando la voz que tienen el las voces
la música distinta en cada lengua
en cada sueño, en cada muerte
en cada mesa de manjar
en cada cuerpo que las nombra con su tacto.
El nombre de las cosas es helado
en la mañana incesante de su ángulo
y es tibio y quema
en el fuego donde arden en sus noches.
Hablamos
el pan, las hojas secas.
Hablamos sólo con los ojos y los gestos
abiertos
y ningún nombre vencerá la mano
tendida, el brazo tenso
que dirije nuestros pasos al deseo
en la serena certeza de los puntos cardinales.
La cosas tienen norte
en la huella que dejaron.
Las cosas
en el sur se sustantivan
se hacen memoria de la piel
recuerdo del amor humedecido
brújula sin mar, aéreo
pretérito imperfecto en la alegría.
Segundo poema das coisas
a Samuel Guillén
A coisas têm nome
na sombra que projetam.
As coisas
em sua luz se substantivam
se fazem verbo dos ventos
verbo das chuvas
verbo incendiado dos dias.
As coisas mudam, mudas
ignorando a voz que têm nas vozes.
a música diferente em cada língua
em cada sonho, em cada morte
em cada mesa de jantar
em cada corpo que as nomeia com seu tato.
O nome das coisas é gelado
na manhã incessante de seu ângulo
e é tíbio e queima
no fogo onde ardem em suas noites.
Falamos
o pão, as folhas secas.
Falamos só com os olhos e os gestos
abertos
e nenhum nome vencerá a mão
estendida, o braço tenso
que dirige nossos passos ao desejo
na serena certeza dos pontos cardeais.
A coisas têm norte
no rasto que deixaram.
As coisas
no sul se substantivam
se fazem memória da pele
lembrança do amor umedecido
bússola sem mar, aéreo
pretérito imperfeito na alegria.
***
La tarde
“Vagi palantes, nullo itineris destinato fine, non ad locum sed ad vesperum contenditur”
Fronto
(Errantes, dispersos, no hay destino para el viaje; andan, no para llegar a un sitio, sino a la tarde.)
Marcus Cornélius Fronto
Yo quisiera caminar de nuevo
los senderos de mi vida umbría
volver a andar hacia la arena de los altos muros
de un olor a otro de los cuerpos
de un calor oscuro en donde naces
a otro frío que no existe entre las lenguas.
Es la muerte, esa vigilia seca
que no descansa de horadar nuestra alegría
quien me lleva lentamente hacia la vida.
Es la muerte, aquella ausente
que tenía mi mano en el tibio de las manos
cuando conducían mis pasos en la sombra
hacia la ardua luz de un ojo helado.
Yo quisiera andar de nuevo el tiempo
que escandiera sin saberlo aquella música
de alimento, espasmos, sueño
y quisiera volver a cada una de las mesas
que acogieron con candor el hambre
mía de vivir apresuradamente el gozo
con el miedo de las vísperas más tristes.
Yo quisiera seguir los mismos pasos
recibir un año más henchido
de néctares aéreos, áureos
y ver en una noche el fuego
que brilla en las alturas del puente de Bassano
donde la mansedumbre arde con sus uvas blancas.
yo quisiera vivir la vida nuevamente
como un rito fugaz, violento
y quisiera caminar de nuevo con capricho sus senderos
para no tenerlos más en lejanía, en áura, en ramas.
Yo quisiera andar de nuevo
el paso lívido de mi vida sorda
no para llegar a un sitio, sino a la tarde.
A tarde
“Vagi palantes, nullo itineris destinato fine, non ad locum sed ad vesperum contenditur”
Fronto
(Errantes, dispersos, no hay destino para el viaje; andan, no para llegar a un sitio, sino a la tarde.)
Marcus Cornélius Fronto
Eu queria caminhar de novo
os caminhos de minha vida vazia
voltar a andar até a areia branca dos altos muros
de um odor a outro dos corpos
de um calor escuro de onde nasces
a outro frio que não existe entre a línguas.
É a morte, essa vigília seca
que não descansa de perfurar nossa alegria
quem me leva lentamente até a vida.
É a morte, aquela ausente
que tinha minha mão na calidez das mãos
quando conduziam meu passos na sombra
para a árdua luz de um olho gelado.
Eu queria andar de novo o tempo
que escandira sem saber aquela música
de alimento, espasmos, sonho
e queria voltar a cada uma das mesas
que acolheram com candura a fome
minha de viver pressurosamente o gozo
com o medo das vésperas mais tristes.
Eu queria seguir os mesmos passos
receber um ano mais pleno
de néctares aéreos, áureos
e ver em uma noite o fogo
que brilha nas alturas do ponte de Bassano
onde a mansidão arde com suas uvas brancas.
Eu queria viver a vida novamente
como um rito fugaz, violento
e queria caminhar de novo com vontade seus caminhos
para não tê-los mais em distância, em aura, em ramas.
Eu queria andar de novo
o passo lívido de minha vida surda
não para chegar a um sítio, senão à tarde.
ORAMAS, Luis Pérez. Prisionero del aire. Valencia: Pré-textos, 2008.