Segunda-feira, Fevereiro 01, 2010

Ao meu lado

Tsarouchis



Haskins


ao som de “Stair way to the Stars” na voz de Johnny Hartman

“Si me despierto en medio de la noche,
me basta con tocarte.
A mi lado respira
tu cuerpo de hombre joven
como animal en la naturaleza”
Juan Antonio González-Iglesias

“Dorme menino grande
que eu estou perto de ti”
Antonio Maria

Ao meu lado repousa,
entre lençóis desfeitos,
entre sonhos adormecidos,
o teu corpo nu de homem vivo,
palpitante de seiva e ternura.
O sono abençoa teu rosto
numa serena expressão
a suavizar os contornos do mundo:
pungente calmaria a embalar
a rotação dos astros;
vibrante inocência a batizar
o contorno das estrelas.
No quarto anoitecido,
incendeio-me na escuridão,
festejo a clarividência da lua
ao contemplar o leve ondular
do teu ombro másculo, vigoroso.
Nessa aparição, tudo cumpre
seu ciclo, tudo se concretiza
em plenitude: os milagres
repousam no teu corpo quente,
resfolegante...
Como os animais no cio,
adormeces, desnudo,
simplesmente ao meu lado.

Bailarina marítima


Degas

à memória de Sophia de Mello Breyner Andresen

Os búzios ornam teus cabelos,
onde adormecem as tempestades.
Os ventos, as dunas, as praias,
são a medida de tuas mãos,
o acorde de teus pulsos.

Danças ausente de corpo,
despida de gestos.

Danças em essência apenas,
em pureza plena.

E no vidro do ar riscas a iluminura
dos relâmpagos, o arabesco do espanto.

Os búzios guardam tuas vazantes,
tuas procelas: mar contido
na enchente de teus poros.

Os corais arrebentam-se em tuas ondas,
em tuas vestes de alga e espuma.

E bailas esculpida pelo acaso,
desenhada pelos desastres.

Espiral de maresia, tropel de vento,
bailas em carne viva,
em pulsação aberta.

Bailas no crepitar da febre,
no redemoinho do êxtase.

Tua maré cheia, tua arquitetura de sal,
desfazem-se em procelas,
em vagas de crescente lua.

E cortas o destino, a imprecisão
das horas, feres a incerteza,
o mistério, e arrancas da morte
o coral de espuma a lhe cingir
o rosto com o estigma dos naufrágios.

Quinta-feira, Janeiro 21, 2010

Cavalo azul - último ciclo



Susana Arias
Soou a hora derradeira e primeira.
Eis o momento dos vendavais,
do estertor dos cataclismas.
Eis o que em nós germinou
antes do nascer das sementes:
nossa morte, cavalo azul a cortar o céu,
a lançar nosso destino aos astros,
onde a infância nos abraça novamente;
nossa morte, corcel cravejado de safiras,
noite mais densa que as rochas,
onde o azul é harpa de cristais partidos,
batel de marinhas esmaecidas.
A sombra extrema desenha nosso rosto
no vazio de outro rosto.
A sombra extrema, fruto túmido,
pleno, explode nosso íntimo,
dissolvendo-nos na fulguração do eterno.
Eis o momento do cavalo azul.
Eis a hora da ressurreição das marés.
Um tropel de sinfonias e plumas
dardeja nossa carne, rasga nosso sêmen.
O cavalo azul aflora dos abismos,
submerge dos desastres, germina das montanhas.
Em sua sede bebemos nosso avesso.
Em sua fome sorvemos nosso mistério.
Eis a travessia impossível,
onde todo homem não caminha,
porque não tem pernas, nem pés.
Eis a travessia amputada,
pasto de enigmas, partitura dos sonhos,
onde somos cegos em nosso destino cego.
Do fecundo nada, do absoluto silêncio,
nasce essa música cristalina, puríssima:
o cavalo celeste e as enchentes,
o cavalo etrusco e os anéis de saturno,
o cavalo de água e os arquipélagos selvagens.





Ligia-Emilia Fielder



Susan Arias

Quarta-feira, Janeiro 20, 2010

O desvelar de Eros na pós-modernidade de Luiz Perez Oramas


Cornelius McCarthy


Luiz Pérez Oramas engendrou, no seu livro Prisionero del aire (Prisioneiro do ar), uma poesia densa, pautada pelo rigor da construção. Com efeito, o poeta soube conformar, com maestria, o caos do existir à delicadeza de formas líricas exatas. O resultado desse lento burilar da palavra pode ser visto em seus poemas esguios, bem talhados, construções harmoniosas a nos desvelar a precisão equilibrada entre sentimento e forma poética.
As relações homoafetivas, na sua pletora orgiástica e sofrida, nos desvela o homem entregue às potências sombrias do fado humano, ante as quais a solidão se recrudesce, se intensifica. O corpo amante, após a intensa epifania do amor, permanece à margem do mundo, resguardando apenas a “esquecida melodia” de uma presença eternamente errática:


Gacela de Marcos

He estado con los días


traspirando la música olvidada
de otro cuerpo, la gris espera
de una lluvia incesante y seca.
He estado Marcos esperando
a sabiendas que no vinieras
y en tu lugar un ángel obstinara
el polvo menudo del deseo.
¿Quiénes son los que te olvidan?
¿Quiénes en el humo vespertino
de las ansias recuerdan
como un ligero temblor las sombras?
¿Quiénes se dicen las palabras
el breve murmullo que se entrega
el amor que no fue de nadie
a todo el mundo?

Gazela de Marcos

Estive com os dias
transpirando a música esquecida
de outro corpo, a gris espera
de uma chuva incessante e seca.
Estive Marcos esperando
já sabendo que não virias
e em teu lugar um anjo obstinasse
o pó ínfimo do desejo.
Quem são os que te esqueceram?
Quem no fumo vespertino
das ânsias te recordam
como um ligeiro temor as sombras?
Quem diz as palavras
o breve murmúrio que se entrega
o amor que não foi de ninguém
para todo mundo?

A solidão do amante torna impessoal o que fora gesto mais íntimo, entranhado no aconchego de encontros surdos, sussurrados no esquecimento. Daí o fato do amor perder sua individualidade e, numa inversão hiperbólica, tornar-se amor e também fado da humanidade toda: “o amor que não foi de ninguém/ para todo mundo?”.
Em Iderman, o corpo do amado é incerto, nele adensam-se metáforas da intensa fragilidade dos afetos: “noite de rotinas”, “corpo que não canta”. Como um sorvedouro, resta desse descompasso, desse desencontro, o desejo ácido, cáustico, “calcinante”, estigma de uma solidão frustrante:



IDERMAN

Era el cielo en ruinas, liso
como un torso de metales y de cuerdas
para navegar sin velámenes
en el acre olor de tu excremento
en el aire solamente
en la cresta solamente de la risa.
Eran cuarenta y cinco semillas secas
cuarenta y cinco árboles sin ramas y sin tallo
cuarenta y cinco raíces sin túmulo y sin agua
cuarenta y cinco soledades en tu mano
grande y fugaz como la tierra prometida.
Era una sombra leve, era un erial
tu piel en noche de rutinas
era el arma tensa y sin destino
el cuerpo incierto que no canta
aún su música de robles y vainillas
en el sol calcinante del deseo.


IDERMAN

Era o céu em ruínas, liso
como um torso de metais e cordas
para navegar sem velames
no acre odor de teu excremento
no ar somente
na crista somente do riso.
Eram quarenta e cinco sementes secas
quarenta e cinco árvores sem galhos e sem tronco
quarenta e cinco raízes sem túmulo e sem água
quarenta e cinco solidões em tua mão
grande e fugaz como a terra prometida.
Era uma sombra leve, era um ermo
tua pele em noite de rotinas
era a arma tensa e sem destino
o corpo incerto que não canta
ainda sua música de carvalho e baunilha
no sol calcinante do desejo.

O jogo sonoro das anáforas, muito usado por Lorca na tradição da lírica hispânica, aqui redunda no martelar das frustrações, do desencanto. Todas as metáforas são desoladoras, são imagens do completo naufrágio desse eu lírico em desamparo: “sementes secas” “árvores sem galhos”, “raízes sem túmulo”.
Podemos perceber, assim, nesse poema, as ruínas de um tempo em agonia, mal do século da pós-modernidade, em que as relações humanas são escalpeladas, em carne viva, numa atroz reificação. Com afirma Hilda Hilst, “esse é um tempo de garras”.
Todavia, o poeta pós-moderno, fiel à sua inspiração lírica, ou melhor, à clarividência salutar do inconsciente, instância psíquica a nos despertar ante os iminentes perigos da autodestruição, mergulha na reluzente epifania do instante, nova versão do carpe diem, e restaura a beleza sagrada de gestos, de momentos agudos, em que a felicidade ainda é possível...
No poema Gazela de Hugo, o corpo traz, ainda, em suas “sendas”, “a unção matinal dos eucaliptos”, as flores e o vinho. A gazela, ou gazel, resgata um gênero típico da poesia árabe. É tal gênero uma das influências da poesia trovadoresca. Em tal tradição, o vinho, a flor, os delicados prazeres, eram celebrados como ritos da própria poesia. Oramas não é infenso a essa celebração da vontade:


Gazela de Hugo

Nunca has visto las montañas
que nos son blancas, blancas.
Nunca has visto sólidas las nubes
como inmensas piedras erguidas
en tu sombra.
Prepara
para todos tus desvelos
las armas
del silencio.
Que repita el cuerpo
sus olvidos
que de nuevo traiga en sus senderos
la unción matinal del eucalipto
las arándanos, los jazmines de agua
el vino acariciando la piel dulce
de los higos ya la espera.



Gazela de Hugo

Nunca viste as montanhas
que não são brancas, brancas.
Nunca viste sólidas as nuvens
como imensas pedras erguidas
em tua sombra.
Prepara
para todos teus desvelos
as armas
do silêncio.
Que repita o corpo
seus esquecimentos
que de novo traga em suas sendas
a unção matinal do eucalipto
os mirtilos, os jasmins de água
o vinho acariciando a pele doce
dos figos e a espera.

Para encerrar esse brevíssimo passeio pela poesia do autor de Prisioneiro do ar, deixamos duas preciosidades, dois poemas de grande fôlego, nos quais a perplexidade de existir é o tom exato da paixão.

Segundo poema de las cosas

a Samuel Guillén

Las cosas tienen nombre
en la sombra que proyectan.
Las cosas
en su luz se sustantivan
se hacen verbo de los vientos
verbo de las lluvias
verbo encendido de los días.
Las cosas mudan, mudas
ignorando la voz que tienen el las voces
la música distinta en cada lengua
en cada sueño, en cada muerte
en cada mesa de manjar
en cada cuerpo que las nombra con su tacto.
El nombre de las cosas es helado
en la mañana incesante de su ángulo
y es tibio y quema
en el fuego donde arden en sus noches.
Hablamos
el pan, las hojas secas.
Hablamos sólo con los ojos y los gestos
abiertos
y ningún nombre vencerá la mano
tendida, el brazo tenso
que dirije nuestros pasos al deseo
en la serena certeza de los puntos cardinales.
La cosas tienen norte
en la huella que dejaron.
Las cosas
en el sur se sustantivan
se hacen memoria de la piel
recuerdo del amor humedecido
brújula sin mar, aéreo
pretérito imperfecto en la alegría.


Segundo poema das coisas

a Samuel Guillén

A coisas têm nome
na sombra que projetam.
As coisas
em sua luz se substantivam
se fazem verbo dos ventos
verbo das chuvas
verbo incendiado dos dias.
As coisas mudam, mudas
ignorando a voz que têm nas vozes.
a música diferente em cada língua
em cada sonho, em cada morte
em cada mesa de jantar
em cada corpo que as nomeia com seu tato.
O nome das coisas é gelado
na manhã incessante de seu ângulo
e é tíbio e queima
no fogo onde ardem em suas noites.
Falamos
o pão, as folhas secas.
Falamos só com os olhos e os gestos
abertos
e nenhum nome vencerá a mão
estendida, o braço tenso
que dirige nossos passos ao desejo
na serena certeza dos pontos cardeais.
A coisas têm norte
no rasto que deixaram.
As coisas
no sul se substantivam
se fazem memória da pele
lembrança do amor umedecido
bússola sem mar, aéreo
pretérito imperfeito na alegria.

***

La tarde

“Vagi palantes, nullo itineris destinato fine, non ad locum sed ad vesperum contenditur”
Fronto

(Errantes, dispersos, no hay destino para el viaje; andan, no para llegar a un sitio, sino a la tarde.)
Marcus Cornélius Fronto

Yo quisiera caminar de nuevo
los senderos de mi vida umbría
volver a andar hacia la arena de los altos muros
de un olor a otro de los cuerpos
de un calor oscuro en donde naces
a otro frío que no existe entre las lenguas.
Es la muerte, esa vigilia seca
que no descansa de horadar nuestra alegría
quien me lleva lentamente hacia la vida.
Es la muerte, aquella ausente
que tenía mi mano en el tibio de las manos
cuando conducían mis pasos en la sombra
hacia la ardua luz de un ojo helado.
Yo quisiera andar de nuevo el tiempo
que escandiera sin saberlo aquella música
de alimento, espasmos, sueño
y quisiera volver a cada una de las mesas
que acogieron con candor el hambre
mía de vivir apresuradamente el gozo
con el miedo de las vísperas más tristes.
Yo quisiera seguir los mismos pasos
recibir un año más henchido
de néctares aéreos, áureos
y ver en una noche el fuego
que brilla en las alturas del puente de Bassano
donde la mansedumbre arde con sus uvas blancas.
yo quisiera vivir la vida nuevamente
como un rito fugaz, violento
y quisiera caminar de nuevo con capricho sus senderos
para no tenerlos más en lejanía, en áura, en ramas.
Yo quisiera andar de nuevo
el paso lívido de mi vida sorda
no para llegar a un sitio, sino a la tarde.





A tarde

“Vagi palantes, nullo itineris destinato fine, non ad locum sed ad vesperum contenditur”
Fronto

(Errantes, dispersos, no hay destino para el viaje; andan, no para llegar a un sitio, sino a la tarde.)
Marcus Cornélius Fronto

Eu queria caminhar de novo
os caminhos de minha vida vazia
voltar a andar até a areia branca dos altos muros
de um odor a outro dos corpos
de um calor escuro de onde nasces
a outro frio que não existe entre a línguas.
É a morte, essa vigília seca
que não descansa de perfurar nossa alegria
quem me leva lentamente até a vida.
É a morte, aquela ausente
que tinha minha mão na calidez das mãos
quando conduziam meu passos na sombra
para a árdua luz de um olho gelado.
Eu queria andar de novo o tempo
que escandira sem saber aquela música
de alimento, espasmos, sonho
e queria voltar a cada uma das mesas
que acolheram com candura a fome
minha de viver pressurosamente o gozo
com o medo das vésperas mais tristes.
Eu queria seguir os mesmos passos
receber um ano mais pleno
de néctares aéreos, áureos
e ver em uma noite o fogo
que brilha nas alturas do ponte de Bassano
onde a mansidão arde com suas uvas brancas.
Eu queria viver a vida novamente
como um rito fugaz, violento
e queria caminhar de novo com vontade seus caminhos
para não tê-los mais em distância, em aura, em ramas.
Eu queria andar de novo
o passo lívido de minha vida surda
não para chegar a um sítio, senão à tarde.


ORAMAS, Luis Pérez. Prisionero del aire. Valencia: Pré-textos, 2008.

Segunda-feira, Janeiro 18, 2010

Gravura de Marie Gailland


Cheval bleu


Domingo, Janeiro 17, 2010

O cavalo azul - terceiro ciclo

Gravuras de Marie Gailland

“Et beaucoup n'ont pas la chance
De le voir passer un jour
Le cheval bleu”
Gilbert Becaud


Galopo no dorso das marés,
meu corpo costurado nos ciclones,
meu torso cravado em tua pele,em teu pelo lunar.
Galopante aridez, eu só sei pulsar no teu plexo,
na fecundidade dos abismos.
Corpos em sôfrega transpiração,
corpos em uníssono, rios a confluírem
num delta de vertigens, foz de enchentes
desvairadas, de correntezas alucinadas.
Possuído pela lâmina dessa fúria,
transmuto-me na energia a cegar
as lanças, os ocasos, os labirintos.
Sou o ser pleno a exaltar-te,
és o que sou, o que fui e serei.
Consagro-me à graça dessa comunhão,
pela qual sou o universo e o nada.
Nessa terra me deito, navego,
nessa pedra me enterro, respiro,
perco-me nesse instinto, nesse espasmo,
para ser o fogo dos corais,
azul febril de infinita iluminura.
Cavalo marinho, dardejante quartzo,
em tuas crinas de ágata, de prata,
queimo a palavra da última estrela,
rasgo o fulgor do teu transe,
da tua clarividência,
pois a morte se fez para os eleitos,
para os profetas, os que sabem da finitude
pelo íntimo do fruto, pelo cerne da chuva.
Eis o pulsar da fúria e das catástrofes:
o cavalo opalino e as estrelas,
o cavalo candente e a poeira dos astros,
o cavalo de vidro e os veleiros incendiados.







Sábado, Janeiro 09, 2010

Homenagem



afresco estrusco

Dora Ferreira da Silva, com quem tive a grande alegria de usufruir belíssimos momentos de conversa, consagrou à importante revista, editada por ela na década de 70, o nome de Cavalo Azul. Esse título ela extraiu dos mitos etruscos. Para esse antigo povo, o cavalo azul era o ser mágico, fantástico, responsável por levar a alma dos mortos à morada celeste. Em homenagem à grande poeta de Hídrias, escrevo esse ciclo de poemas com o mesmo nome de sua importante revista.

O cavalo azul II



Gravuras de Susana Arias

Segundo ciclo

“Um cavalo corta o corpo
de meus ancestrais perdidos

um cavalo corta o peito,
fere o coração ferido”
Lara de Lemos


Reluz na noite um fulgor de adaga desnuda,
fulgente aparição a cortar o sonho dos mortos,
o sono das estrelas marinhas: cavalo azul
a relampejar pelos caminhos o tempo das cicatrizes.
Sua crina flamejante, seu ígneo peito, seduzem o luar,
ampliam pelo infinito a cintilação das marés.
Espectro de labirintos vazios,
ele galga a espuma das praias,
a agonia dos condenados à morte.
Ele dardeja a dança dos barcos,
o bordado das ondas,
a solidão dos marinheiros em febre.
Os náufragos, os miseráveis, os afogados,
clamam pela salvação desse sopro de chuvas,
desse maremoto de coices ardentes.
Serenamente soa pela brisa seu pulsar de sândalo,
o seu galope de prismas, delicado aroma
do vinho a incendiar os crepúsculos.
Ele adeja sobre o desespero, salvando-nos
da carne, do medo, do tempo.
Ele nos resgata do pó humano, soerguendo-nos
à sagração das searas fecundas.
Quando seu resfolegar nos arrebata,
nos resgata de nossos pulsos,
ressuscitamos no clarão dos rubis,
na magnitude da aurora boreal.
Desde o nascimentos estamos consagrados
à essa epifania de silêncio e mel:
o cavalo andaluz e o eclipse lunar,
o cavalo cigano e os cometas partidos,
o cavalo de absinto e o mercúrio dos astros.


Sexta-feira, Janeiro 08, 2010

O cavalo azul




PRIMEIRO CICLO

à memória de Dora Ferreira da Silva

“Cavalo, halo de memória, guardo-te no peito
Sobre esta grande artéria”
Hilda Hilst


Um tropel de silêncio e eternidade
desdobra o ar em acordes levíssimos,
feitos de orvalho e bruma.
As crinas vão desatando o infinito,
as estrelas, a solidão mais aguda.
Eis o instante do cavalo azul.
Eis a sagração do céu em nós.
De seu dorso nascem os desastres.
Procelas tatuam o seu plexo.
Nos seus flancos levitam violinos de água,
teclas de pólen, sinfonias de esquecimento.
Jamais a morte poderia nos assaltar
com maior doçura, com mais bela música.
Jamais o sofrimento teve olhos tão dóceis,
cílios de mel e vinho.
Nunca o instante teve essa luz raríssima,
desenhada pelas puras formas
de um relâmpago cego,
diamante vivo a deslumbrar a noite.
A rutilância dos segundos galga nossa pele,
a terra olorosa do corpo.
Em chamejante espiral de nuvens,
o cavalo azul nos enlaça em seu fulgor,
na ternura de uma violência incontida,
dança de galáxias e sóis delirantes,
vórtice febril, iluminado.
Ao toque do seu pêlo de súbitos incêndios,
queimamos nossa alma no eterno,
aderimos nossa pele ao infindável.
Festa múltipla, embriaguês da febre,
somos a celebração dessa sonâmbula magia,
pulsar sagrado desnudando-nos para as tempestades,
para a decantação dos mares selvagens.
Eis o instante da morte aguda.
Eis o êxtase do tempo soberano.
O cavalo azul nos visita
com sua aparição de lanças desnudas,
de lâminas agudas, mil raios
a trespassarem nossas feridas.
Quando suas patas arpejam a terra,
as sementes fecundam os sonhos,
despontam do pó ramos e milagres,
frutos abençoam a encantação do amor:
a cavalo marinho e os oceanos,
o cavalo turquesa e os mares,
o cavalo de âmbar e os corais ardentes.